3.4.08
INDICAÇÃO DE LEITURA
ENCARANDO O DESAFIO DOS DIREITOS ANIMAIS
Autor: REGAN, TOM
Editora: LUGANO
Assunto: FILOSOFIA

Prefácio à edição americana
Jeffrey Moussaieff Masson
Este livro é, na minha opinião, a melhor introdução ao tópico Direitos Animais já escrita. Ninguém fez mais do que Tom Regan para articular o que significam – e deveriam significar – os direitos animais. Reconhecido mundialmente há décadas como o principal porta-voz do movimento pelos direitos animais, Tom Regan sempre teve uma visão radical, no sentido original da palavra: chegar à raiz. É isso que lhe possibilita condenar, em bases puramente morais, todo e qualquer experimento com animais, qualquer que seja o chamado "benefício" desses experimentos para os humanos – posição que eu endosso seriamente e que ouvi expressa com mais eloqüência primeiro por Tom Regan.
A filosofia sobre animais de Tom Regan é original na própria essência. Não depende de nenhum sistema anterior. Não está vinculada às doutrinas do utilitarismo ou a qualquer outro ponto de vista tradicional. É o produto de uma rara combinação de razão e emoção. Isso é o que faz Tom ser tão admirado por pessoas que se importam com os animais; é também o que faz este livro tão revigorante. Destas páginas transbordam idéias profundas, expostas com clareza e simplicidade. Apesar de escrito por um filósofo, você não precisa ser formado em Filosofia para entender e apreciar este formidável livro.
Tom atualiza o que talvez seja o dito mais famoso (merecidamente) do movimento pelos direitos animais, apresentado há muito tempo por Jeremy Bentham: “A questão não é ‘Eles podem raciocinar?’ nem ‘Eles podem falar?’,mas ‘Eles podem sofrer?’" E acrescenta uma coisa igualmente importante, porém não reconhecida até então. A questão não é apenas "Os animais podem sofrer?", mas "Eles são sujeitos-de-uma-vida?" Esta é uma daquelas frases que ficam em nossas cabeças depois de muito tempo que a lemos. Conforme ela vai sendo absorvida, você vai notando que foi exposto a uma idéia nova, a um daqueles insights com potencial para mudar uma vida. Animais têm passado, uma história, uma biografia. Eles têm histórias. Minks e ursos, elefantes e golfinhos, porcos e galinhas, gatos e cães: cada qual é um ser único, e não algo descartável.
Pense nas várias implicações: animais têm mãe e pai, em geral têm irmãos; têm amizades, uma infância, juventude, maturidade. À semelhança dos humanos, eles passam por ciclos de vida (o psicanalista Erik Erikson construiu sua reputação descrevendo essas fases na vida dos humanos, mas elas têm igual importância na vida dos animais). Além disso, como afirmou Tom – e aqui vai outra daquelas esclarecedoras frases que nunca vão deixar você sossegado (por exemplo, mordendo-lhe a consciência) – a vida dos animais pode ser melhor ou pior para eles, importem-se ou não os outros com isso.
Adversários de Tom costumam dizer que não é possível sabermos o que deixa um animal feliz. Mas, essa afirmação é um absurdo, pois nada pode ser mais fácil de saber. Uma vaca quer viver, amamentar seu bezerro, ficar ao ar livre, num mundo natural com vento, sol e outras coisas naturais. Uma vaca é feliz quando faz o que vacas evoluíram para fazer: ter amigos, família – e uma vida. Não uma morte. É isso o que uma vaca quer fazer; isso é o que a deixa feliz. Quando você se pergunta qual a pior coisa que pode acontecer na vida de qualquer animal, conclui: uma morte prematura. Então a filosofia de Tom nos diz que precisamos fazer tudo que pudermos para garantir que nenhum animal morra, a menos que a morte seja natural ou necessária (inclusive por motivos de piedade, que é o caso da eutanásia).
Desembarace todas os complexos desdobramentos dessa simples afirmação de Tom, e descubra estar fazendo uma viagem intelectual a lugares que talvez nunca tenha pensado em visitar. Você poderá se deparar com implicações que talvez nunca tenha considerado, como aconteceu comigo logo depois de ler o livro do Tom. Ao fim de muita pesquisa, minha família achou que a perua Volvo Cross-Country fosse o melhor carro em termos de segurança para as crianças (e nós temos duas crianças pequenas). Onde eu vivo (Nova Zelândia), o estofamento da perua só é feito em couro. Eu não estaria levando a sério os insights de Tom Regan se apoiasse a matança de uma dúzia de vacas por causa do meu carro, certo? De jeito nenhum. Fora de cogitação, para mim.
Agora pense um pouco em ovos. Como são tratadas as galinhas que produzem ovos? Quanto crédito eu poderia dar às afirmações daqueles que lucram com a venda de ovos? E de quem são esses ovos, aliás? Se eu levasse as idéias de Tom a sério, mas continuasse a comprar ovos, será que não estaria incentivando práticas em que se mata, rotineiramente, os animais que não botam ovos com a freqüência exigida? Para começo de conversa, eu nem preciso de ovos! Como é que alguém pode justificar o ato de aterrorizar e matar animais inocentes? Se galinhas são “sujeitos-de-uma-vida”, minha decisão não estaria mostrando respeito por elas. Se a vida delas vai bem ou mal, minha decisão colaboraria para seu bem-estar ou o atrapalharia? Chega de ovos!
Não tenho certeza, mas creio que Tom tenha sido o primeiro a me fazer perceber que tirar a vida de um animal, qualquer um, é uma coisa importante, um momento muito significativo que não deve ser visto com leviandade. Não devemos nos esconder atrás das palavras, nem usar termos obscuros e imprecisos, na tentativa de disfarçar o que fazemos. Agora mesmo, enquanto escrevo, americanos se ocupam exatamente disso, de matar pessoas enquanto falam sobre choque, pavor e recursos militares. Neste livro, Tom explica que devemos usar palavras que todos compreendam e no modo como elas sempre foram usadas e compreendidas. Ele não vai admitir o tipo de enganação que acabo de indicar, especialmente quando praticado por gente que abusa de animais e se esconde atrás da retórica do "tratamento humanitário" e “manejo responsável". Tom nos chama constantemente de volta aos nossos melhores instintos.
Estou convencido de que os animais, todos eles, sentem amor, de uma maneira parecida com a dos humanos. Sei que Tom concorda comigo. E aqui está o livro dele, escrito com amor, pedindo que façamos só uma coisa, mas uma coisa radical: que vivamos de modo a mostrar respeito pelos animais mesmo quando nos esforçamos para viver de modo a mostrar respeito uns pelos outros. Leia este livro e veja se não vai acabar convencido de que esta é a grande esperança para nosso planeta nesse perigoso momento da sua existência.
Tom Regan, Professor Emérito de Filosofia da Universidade da Carolina do Norte, é reconhecido mundialmente comoum dos maiores nomes da Bioética, especialmente da teoria dos direitos animais. Vegetariano há 30 anos, seus numerosos escritos e livros têm marcado o movimento em defesa dos direitos animais. Publicou, entre outros, The Case for Animal Rights e Animal Rights and Human Obligations (organizado juntamente com Peter Singer).
Fonte: www.svb.org.br
andreiadupski
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